“Tito: Coração de Estudante” está em cartaz na Galeria da Liberdade (Foto: Sergio Lima)

Símbolo de resistência contra a opressão da ditadura no Brasil, Tito de Alencar Lima é o protagonista de exposição em cartaz até o próximo sábado, dia 7 de novembro, na Galeria da Liberdade, espaço gerido pelo Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE).

Batizada “Tito: Coração de Estudante”, a exposição é um convite à reflexão e à memória, reunindo fotografias, objetos pessoais e poemas que contam um recorte da história do frei nascido em Fortaleza, em 1945. “Por uma linha do tempo que sai de um coração, resgatamos a vida desse jovem que o Estado tentou culpar e silenciar durante a Ditadura Militar, mas que jamais perdeu o seu sorriso inocente”, destaca o artista gráfico e músico Tiago de Alencar, sobrinho-neto de Tito e curador da exposição.

O MIS CE integra a Rede Pública de Espaços e Equipamentos Culturais (Rece), da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult CE), e é gerido em parceria pelo Instituto Mirante. A Galeria da Liberdade compõe o complexo arquitetônico do Palácio da Abolição.

História e memória

A exposição “Tito: Coração de Estudante” foi pensada para fazer, especialmente junto às juventudes, um exercício de reflexão crítica, memória e sensibilidade histórica. A iniciativa é da Associação dos Amigos da Casa Frei Tito. “Esta mostra não é apenas uma homenagem afetiva; ela representa um recorte histórico essencial da nossa breve democracia”, cita Tiago de Alencar, ressaltando o caráter pedagógico da proposta curatorial.

A força de Tito como líder estudantil é um importante eixo da mostra. “Esta exposição reafirma a importância da luta cotidiana pela consolidação da democracia brasileira, reconhecendo o papel dos grupos e movimentos que mantêm viva a utopia de um mundo mais justo, solidário e em paz”, frisa Lúcia de Alencar, sobrinha de Tito e responsável pelo apoio conceitual e a pesquisa para a exposição.

Exposição

Ligados ao coração símbolo da exposição, retratos e textos de Frei Tito são expostos nos corredores da Galeria da Liberdade, em um arco biográfico repleto de história e força. São desde imagens de Tito bebê até momentos no Liceu do Ceará, além de registros junto ao movimento estudantil e fotos do exílio, em Paris, onde o frei morreu, em 1974.

Entre as imagens da jornada política de Frei Tito, é exibida a icônica fotografia do cearense e de centenas de estudantes no histórico Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna, no ano de 1968. Tito idealizou e organizou o encontro, e ali foi preso pela primeira vez por participação no movimento estudantil.

A exposição traz ainda imagens que humanizam o frade. Em uma das fotos, o jovem Tito está com amigos em uma cachoeira, em Guaramiranga. Outro registro mostra Tito tocando violão. 

Em meio às imagens, poemas escritos por Tito em várias fases da vida traduzem as angústias, utopias e a esperança do cearense na construção de um projeto de liberdade para as pessoas.

Na sala Frei Tito, que une os corredores da Galeria da Liberdade, a exposição transporta as pessoas para um lugar de reflexão. No espaço, objetos do frade estão expostos em oratórios de madeira e um grande arquivo tem, nas gavetas, depoimentos de indivíduos perseguidos durante a ditadura militar. A proposta é: abrir, ler, testemunhar. Ao abrir as gavetas, o público é convidado a romper qualquer silêncio, lendo os relatos da repressão. São histórias de indivíduos que, assim como Tito, são parte da história do Brasil. 

Quem foi Frei Tito?

(Foto: Sergio Lima)

Tito de Alencar Lima nasceu em Fortaleza, em 1945, e é um dos grandes símbolos da resistência e da luta contra a ditadura militar brasileira. 

A jornada política do cearense começou na juventude católica, onde ele compreendeu que a religião deveria servir à libertação dos oprimidos. 

Em 1963, Tito assumiu a direção regional da Juventude Estudantil Católica (JEC) e se mudou para Recife.

Com o golpe de 1964, Tito partiu de Recife para São Paulo, em busca de novos caminhos para a formação intelectual e para dar continuidade à sua vocação. Lá, estudou Filosofia e ingressou no Noviciado da Ordem dos Dominicanos. Na Cidade, assumiu papel de liderança na articulação entre a Igreja progressista e a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Em novembro de 1969, o convento onde Tito vivia foi invadido pela equipe do delegado Sérgio Fleury, e o cearense foi levado aos porões da repressão. 

Em 1970, incluído na lista de presos políticos dados em troca pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, que havia sido sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Tito foi banido do Brasil e se mudou para o Chile. Ameaçado, fugiu para a Itália e de lá, foi para Paris, onde recebeu apoio dos dominicanos. Aos 28 anos, em 1974, Frei Tito tirou a própria vida, na capital francesa, profundamente marcado pelas torturas e perseguições sofridas durante a ditadura brasileira. 

Em maio de 2026, durante sessão solene na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), o Estado brasileiro reconheceu sua responsabilidade pela morte do Frei e de outros mortos e desaparecidos políticos, entregando certidões de óbito retificadas às famílias. O documento, inclusive, é parte da exposição.

A trajetória de Frei Tito se tornou símbolo da violência de Estado e da luta por justiça, memória e direitos humanos.

Visitação

“Tito: Coração de Estudante” segue em cartaz até este sábado, 7 de novembro.

A Galeria da Liberdade funciona de quarta-feira a sábado, nos seguintes horários: quarta e quinta-feira, das 10h às 18h (com acesso até as 17h30) e sexta e sábado, das 13h às 20h (com acesso até as 19h30).

A visitação é gratuita e aberta ao público. A classificação indicativa da exposição é 12 anos.