
O Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE) vai levar novamente um pouco do nosso estado para Minas Gerais. Restaurado e digitalizado pela equipe do Museu, o documentário “Jangada de ir e vir”, de Marcus Vale, será exibido no sábado (27) na 21ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto, a CineOP.
É a segunda vez que o MIS CE participa do evento, reforçando o compromisso do Museu com a salvaguarda e difusão do patrimônio audiovisual cearense.
O MIS é um equipamento da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult CE) gerido em parceria com o Instituto Mirante.
Filmada em Super-8, em 1977, na Prainha, em Aquiraz (CE), “Jangada de ir e vir” tem 22 minutos e mostra o dia a dia de jangadeiros e os mistérios do mar do litoral cearense. A produção, que tem trilha do artista Rodger Rogério, foi restaurada pelo Laboratório de Preservação, Conservação e Digitalização do MIS CE, com finalização em 2K e apoio do Centro Técnico Audiovisual (CTAv) na restauração de áudio. O CTAv é o órgão do Ministério da Cultura responsável pelo apoio técnico à produção de obras audiovisuais nacionais.
O filme começou a ser restaurado em 2025. Inicialmente, foi feita uma pesquisa histórica e um diálogo entre a equipe do MIS CE e o diretor, Marcus Vale, para escolha da melhor abordagem para trabalhar as cores da obra, como explica Gabriela Dantas, técnica especialista no restauro digital de imagem no Museu. Em seguida, foram feitas a revisão do material e a avaliação das degradações. Isso permite que se entenda as necessidades técnicas do processo.
No trabalho, além de softwares de recuperação de cor e restauro digital, foram realizadas correções manuais, frame a frame. “Buscou-se, durante todo o processo, manter um aspecto visual que fosse agradável, mas respeitasse, sobretudo, a originalidade e historicidade do filme”, diz o colorista do MIS, Alan Emmanuel, que trabalhou na recuperação da cor.
O som da produção chamou a atenção da equipe durante os trabalhos: “O filme traz uma perspectiva rara da prática cinematográfica cearense. Filmar enquanto se equilibra em uma jangada é, de longe, o maior desafio do cineasta. Mas o desenvolvimento da trilha sonora não fica muito atrás, elaborada e gravada durante a reprodução do filme”, cita David Felício, técnico especialista no restauro digital de imagem no MIS.
Para digitalizar essa trilha, o Museu fez, pela primeira vez, uma parceria institucional em um projeto de restauração. “Não há no Museu nenhum equipamento capaz de digitalizar o som diretamente, sendo necessária a utilização de procedimentos e técnicas e um cuidado especial com o filme durante o processo. Utilizamos um projetor para capturar o áudio por meio de uma mesa de som, que foi gravado por nós e restaurado pelo CTAv”, detalha David Felício.
MIS CE: Tecnologia e equipamentos de ponta para restauro e digitalização
Com a digitalização de obras em suportes analógicos, o MIS tem papel fundamental para preservar e democratizar o acesso ao patrimônio audiovisual no Ceará e no Brasil. Esse trabalho é possível graças ao investimento público que viabilizou o uso do equipamento Scanity HDR 4K e do software DIAMANT-Film Restoration.
“O MIS conta com um equipamento de digitalização que é um dos mais modernos do planeta. Até hoje ainda é o único equipamento desse modelo na América do Sul. E é um equipamento que foi pensado para esse trabalho museal, de digitalizar películas que estão num estágio de degradação já muito avançado. O equipamento fornece para a gente tecnologia muito poderosa para que esse trabalho possa ser feito aqui”, diz Alan Emmanuel.
A equipe responsável pelo restauro e digitalização de “Jangada de ir e vir” no MIS CE é composta por: Alan Emmanuel – Recuperação de cor; David Felício – Restauro digital de imagem; Eliene Magalhães – Pesquisa; Gabriela Dantas – Restauro digital de imagem; Camile Abreu – Assistente de Restauro digital de imagem; Gabriel Mendes – Assistente de Restauro digital de imagem; Ítalo Sousa – Assistente de Restauro digital de imagem; e Mariano Batista – Assistente de Restauro digital de imagem.
Mostra Preservação na 21ª CineOP
Mostra pioneira no enfoque da preservação audiovisual, da memória e da história, e ao tratar o cinema como patrimônio cultural, a CineOP começa nesta quinta-feira (25) e segue até 30 de junho.
Nesta 21ª edição, são propostas reflexões sobre os começos, os gestos inaugurais e as experiências formadoras que conectam o cinema, a preservação e a educação. Serão exibidos mais de 100 filmes, em pré-estreias nacionais, retrospectivas e sessões temáticas, além de homenagens, debates, oficinas, exposições, shows e atrações artísticas.
A Mostra Preservação, na qual a produção “Jangada de ir e vir” será exibida, destaca cópias restauradas e obras que evidenciam o patrimônio audiovisual como memória dinâmica. A equipe do MIS CE que viajou a Minas Gerais é composta pela diretora-adjunta do Museu, Kennya Mendes, e os técnicos Gabriela Dantas e David Felício.
MIS de volta à CineOP
Em 2024, o MIS CE levou à CineOP o documentário “Chico da Silva”, restaurado pela equipe do Museu. O documentário de Pedro Jorge de Castro foi doado pelo diretor para o acervo do MIS e restaurado digitalmente em 4K pelo Laboratório de Preservação, Conservação e Digitalização.
Entre as principais diferenças dos dois trabalhos cearenses levados a Minas Gerais está o tipo de material em que os filmes foram produzidos: “Chico da Silva” é uma produção em 35mm e “Jangada de ir e vir”, tem 8mm.
“Em uma película de Super-8, um sujo incrustado na emulsão pode ter a dimensão do que seria a cabeça de um personagem da película, enquanto que em um 35mm o mesmo sujo poderia ter a dimensão irrisória na imagem. Então, restaurar um Super-8 é sempre uma tarefa mais difícil”, detalha Gabriela Dantas.
Ficha técnica de “Jangada de ir e vir”:
Direção: Marcus Vale;
Cidade: Aquiraz (Ceará)
Ano: 1977;
Duração: 22’16”;
Classificação indicativa e descritor de conteúdo: AL, autoclassificada livre.
Sinopse: Um dos filmes mais aplaudidos de Marcus Vale. A belíssima fotografia, aliada à música de Rodger Rogério, nos leva a viajar com os jangadeiros pelos insondáveis mistérios do mar. Mergulhamos, quando vemos o filme, de corpo e alma na poesia marítima, ao mesmo tempo em que somos levados a sentir os gestos seguros dos jangadeiros, a continuidade de uma tradição milenar no exercício da pesca e a coragem destes caboclos que se atiram ao mar, enfrentando tantos perigos, na luta inglória pela sobrevivência. (A partir da matéria “Marcus Vale – Cientista e cineasta.” da coluna “Artefatos” de Rosemberg Cariry no Jornal Unitário. Fortaleza, 08/07/79 a 14/07/79)