“Uma Rua Chamada Cinema” homenageia trabalhadores que fazem a magia de salas de cinemas em vários países e ilustra as mudanças nas dinâmicas sociais. Uma das fotos é do Cineteatro São Luiz, no Centro de Fortaleza (Foto: Sergio Poroger)

O Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE) inaugura, no dia 15 de abril, a exposição “Uma Rua Chamada Cinema”. A cerimônia de abertura será realizada no Anexo do MIS CE (Andar +2) às 15h. O museu integra a Rede Pública de Espaços e Equipamentos Culturais (Rece) do Governo do Ceará, vinculada à Secretaria da Cultura, com gestão do Instituto Mirante.

O que seria do cinema sem o bilheteiro, sem o trocador de letreiros, sem o vendedor de pipoca, sem o projecionista? Sem as pessoas que trabalham incansavelmente nos bastidores para que um filme ganhe vida numa sala de cinema? Sem elas, não existiria o cinema. Pelo menos o cinema que o jornalista e fotógrafo Sergio Poroger aprendeu a amar. Com curadoria de João Kulcsar, Poroger traz, ao MIS CE, a mostra com 36 fotos de trabalhadores e de salas de cinema de vários países do mundo. “Uma Rua Chamada Cinema” fica em cartaz até o dia 19 de julho.

Uma das imagens da exposição mostra o letreiro do Cineteatro São Luiz, marco arquitetônico e cultural localizado no Centro de Fortaleza. Fundado em março de 1958 pelo empresário cearense Luiz Severiano Ribeiro, o local foi tombado como patrimônio histórico e cultural estadual em 1991.

“Ter fotografado em 2019 a troca dos letreiros na fachada do Cine São Luiz foi como ter assistido a um pequeno ritual do tempo. Ali, no coração de Fortaleza, o cinema não é apenas o que acontece na tela. Ele começa do lado de fora, na fachada, onde o presente encontra o passado em cada mudança de cartaz. O barulho quase imperceptível das peças sendo ajustadas, o olhar curioso de quem passa, a pausa involuntária para ver “qual é o filme da vez”. Tudo isso transforma um gesto simples em espetáculo”, explica o fotógrafo Sergio Poroger.

Para o fotógrafo, esse contexto é bonito porque é humano. “Porque resiste ao digital, ao automático, ao instantâneo. Porque ainda exige tempo, cuidado e presença. E talvez seja por isso que, naquele instante, antes mesmo de entrar na sala escura, a magia do cinema já tenha começado. As mãos que sobem e descem pelas escadas parecem coreografadas por décadas de histórias. Cada letra encaixada com cuidado carrega mais do que o nome de um filme — carrega expectativa, memória e um convite silencioso para sonhar”, descreve Poroger.

Paixão pelo cinema

Além de contar histórias visuais de pessoas trabalhadoras que viabilizam a fruição de filmes em diversas partes do mundo, a mostra também possibilita uma reflexão sobre as mudanças sociais e tecnológicas que representam novos hábitos e experiências diferentes em relação à audiência de filmes.

“O senso coletivo que o cinema promove – aquela comunhão dentro da sala – cresce quando inserido no espaço público, fora da clausura dos shoppings. Essa motivação se coloca nesta mistura de nostalgia e tentativa de preservação, nem que como registro – de uma experiência artística e urbana que hoje, ao menos no Brasil, está sob ameaça”, relata Sergio Poroger.

Ao viajar de carro, de NY a Miami, o fotógrafo Sergio Poroger passou por mais sete cidades (Wilmington DE, Philadelphia, Richmond, Wilmington NC, Charleston, Savannah e Jacksonville). Na segunda fase do projeto, foram captadas imagens de diferentes cidades holandesas, polonesas, argentinas e brasileiras.

As fotos de “Uma Rua Chamada Cinema” levam à reflexão sobre as diferenças entre uma época na qual era bem mais frequente apreciar posters ao lado da bilheteria do cinema de rua numa experiência mais coletiva e a atual, na qual a vivência de assistir a um filme está intermediada pela chegada do streaming e mais restrita a ambientes domésticos.

“Os cinemas de rua constituíram uma parte indelével da infância do fotógrafo. Cresceu imerso na magia dos desenhos animados, aos domingos, ao lado de seu pai no antigo Cine Metro, no coração de São Paulo. Inspirado por essa vivência, nutriu o desejo de nos conduzir por uma jornada visual, capturando fotografias de salas de cinema por vários países, desde os Estados Unidos, Holanda, Polônia, Argentina até o Brasil. Cada imagem é um tributo apaixonado ao mundo cinematográfico. É, portanto, uma homenagem não apenas à arte do cinema, mas também aos profissionais que tornam possível essa mágica”, afirma o curador João Kulcsar.

Projeto iniciado em 2017

“Uma Rua Chamada Cinema” foi um longo projeto de pesquisa iniciado nos Estados Unidos, em 2017, como a premissa do fotógrafo descobrir quais locais seriam ideais para fotografar a indústria do cinema refletido no cotidiano das pessoas. Sergio Poroger captou imagens e locais não óbvios – distante de Hollywood e dos grandes estúdios de Los Angeles. Fez fotos de uma região inusitada, a costa leste dos Estados Unidos, que guarda imagens e histórias fantásticas desta indústria, tão forte presente no dia-a-dia daquele país.

“Passei por cenários dos mais diversos – dos grandes centros a pequenas localidades, ao redor do mundo -, onde pude aprender sobre os costumes dos povos a partir do que vemos e preservamos. Os cinemas de rua não falam apenas sobre a história da indústria cinematográfica, mas, cada qual à sua maneira, ilustram dinâmicas sociais das cidades que hospedam. Transformar esses encontros em imagem foi – e tem sido – meu maior desafio, finaliza Poroger.

Sobre o fotógrafo e o curador

Sergio Poroger nasceu em São Paulo em 14 de agosto de 1956. Jornalista de formação, assessor de imprensa há mais de 40 anos, sempre teve gosto pelo desenho, fotografia, música, cinema e futebol. Há 10 anos, lançou seu primeiro livro de fotografias,Cold Hot, sobre a musicalidade do Sul dos Estados Unidos e os contrastes desta região. Em 2017, uniu fotografia a filmes e iniciou seu novo projeto: fotografar salas de cinema e trabalhadores anônimos dessa área nos Estados Unidos, Holanda, Polônia, Argentina, São Paulo e Interior, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Fortaleza, projeto que ganhou projeção em exposição por 3 meses no Museu da Imagem e do Som – MIS SP, em 2024, e que fazem parte da mostra “Uma Rua Chamada Cinema”.

João Kulcsár – professor visitante na Universidade de Harvard 2002/3, como bolsista da Comissão Fulbright. Mestrado em artes pela Universidade de Kent, Inglaterra, 1996/7, como bolsista do The British Council. Professor e coordenador de fotografia do Senac-SP desde 1990. Presidente da REDE de produtores da fotografia no Brasil (2016-19). Diretor do Festival de Fotografia de Paranapiacaba e do Festival de Fotografia de S. Paulo.

Serviço:
Abertura da exposição “Uma Rua Chamada Cinema”
15 de Abril de 2026
Às 15h
Andar +2 do Anexo do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS CE)
Avenida Barão de Studart, 410