
O programa Trair o Cistema, que completará três anos em 2026, é uma iniciativa do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE) e tem como objetivo promover criações artísticas, ações educativas e pesquisas desenvolvidas por pessoas trans, travestis e não bináries. O MIS-CE é um equipamento cultural da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult Ceará) e é gerido em parceria com o Instituto Mirante de Cultura e Arte. Em 2025, o programa passa a integrar a programação cultural da 4ª Marcha Trans e Travesti do Rio de Janeiro, com duas obras criadas no Ateliê de Criação Tecnologias Transvestigêneres. Neste ano, a Marcha Trans será realizada no dia 22 de novembro, nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro
Idealizado pelas multiartistas, curadoras, pesquisadoras e arte-educadoras Ana Paula Braga, Garu Pirani, Lipe da Silva e Sophia Aires, o programa é atualmente conduzido por Sophia Aires, Rafael Aires e rømã, consolidando-se como uma experiência contínua de produção de conhecimento e invenção de imaginários dissidentes. “Trair o Cistema” propõe um olhar crítico sobre os pactos ficcionais da cisgeneridade, questionando e reinventando as representações sociais que atravessam corpos e existências trans. Em quase três anos de atuação, o programa vem desenvolvendo ações contínuas e já envolveu mais de 150 profissionais em suas diversas iniciativas, que incluem mais de 15 oficinas, 7 rodas de conversa, 15 conversas experimentais, 7 mostras e apresentações artísticas, 1 webinário com 4 mesas e 2 ateliês de criação, além do atual Ciclo Formativo, voltado à comunidade LGBTQIAPN+, com ênfase nas vivências trans.
Entre seus desdobramentos, o Ateliê de Criação Tecnologias Transvestigêneres se destaca como um espaço de investigação, experimentação e intercâmbio de saberes. A partir de uma abordagem transdisciplinar, o Ateliê propõe a diluição das fronteiras entre linguagens artísticas e campos do conhecimento, estimulando o hibridismo, a coletividade e o questionamento dos limites entre arte e tecnologia.
O programa propõe, por meio das tecnologias transvestigêneres, ultrapassar a noção convencional de tecnologia. Essas tecnologias vão além de aparelhos digitais, abrangendo saberes ancestrais, estratégias de sobrevivência, oralidades, afetos, espiritualidades e criações artísticas capazes de transformar o presente e reinventar possibilidades de vida.
Ao longo de duas edições, o ateliê reuniu 20 artistas bolsistas e 12 professores em torno de pesquisas que exploraram as relações entre arte, tecnologia, memória e contemporaneidade. O trabalho coletivo resultou nas obras “Fragmento – KYMERA” e “MoneraFungi”, ambas incorporadas ao acervo do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE).
Sobre as obras desenvolvidas nos ateliês:
“Fragmento – KYMERA”
A obra fragmento-KYMERA se desenvolve a partir do encontro de dez artistas no Ateliê de Criação Tecnologias Transvestigêneres do Museu de Imagem e Som do Ceará. A criação, realizada de forma coletiva, parte de experimentações com sons e imagens criados a partir de investigação de imagens de arquivo, fabulações com tecnologias de fotogrametria (3D) e animações. Na obra, um fragmento de memória orbita no tempo e espaço antes de ser inventado. Essa memória busca um lar para que possamos coexistir por meio da circularidade das matérias. Somos espirais que habitam uma movimentação cósmica.
Artistas/pesquisadories: Amorfas, Curimatã Oliveira, Ella Monstra, Georgia Vitrilis, Hesse Santana, Lipe Maria, Lui Foito, Mica Macaca, Nicotinta e Stefany Mendes.
“MoneraFungi”
Após receber um convite com uma surpresa não tão agradável, Atreviduxes vão a um banquete luxuoso, mas não podem se sentar à mesa principal. Após protestos e quebração, esse mundo sofre seu apocalipse. Da regeneração, brotam do barro Atreviduxes que moldam novas versões de si mesmus. Em uma celebração de muita fartura, num mundo reconstruído por elus comungam em um novo banquete e recebem a visita de um ser extrafísico, que revela seu movimento sagrado.
Artistas/pesquisadories: Abeju Ara, Alessandra Flor Ferraz, Cardosa Santos, Kaya, Luli Pinheiro, Maittê, Rosinha (Oziel Herbert), Souma, Sy Gomes e Sunny Maia
Em 2025, as duas obras serão exibidas em óculos de realidade virtual durante a 4ª Marcha Trans e Travesti do Rio de Janeiro, que acontece em 22 de novembro, a partir das 11h, nos Arcos da Lapa, sob o tema “Independência, não morte”. A Marcha se consolida como uma das mais importantes manifestações do movimento trans brasileiro, reafirmando a luta pela vida, liberdade e dignidade das pessoas trans e travestis.
“Nossa participação na Marcha reforça o compromisso do programa em partilhar pesquisas e criações que emergem de nossas existências. O Trair o Cistema é também criar mundos possíveis e celebrar a arte como espaço de cura e resistência, além de difundir o trabalho de 20 artistas trans cearenses”, afirma Sophia Aires, arte-educadora do MIS-CE e uma das criadoras do programa.
A presença do MIS-CE por meio do programa Trair o Cistema na Marcha amplia o diálogo entre arte, museologia e ativismo, integrando-se às pautas políticas e poéticas que atravessam os corpos e criações trans no Brasil.
SERVIÇO
Trair o Cistema – Exibição das obras: “Fragmento KYMERA” e “MoneraFungi” em óculos de realidade virtual – Participação na 4ª Marcha Trans e Travesti do Rio de Janeiro
22 de novembro de 2025
Rio de Janeiro – RJ | Arcos da Lapa – a partir das 11h
Tema: “Independência, não morte”