29 de agosto de 2025 a 15 de novembro de 2025

Andar +2 do Anexo
Quarta, quinta e domingo das 10h às 18h (acesso até 17h30)
Sexta e sábado das 13h às 20h (acesso até 19h30


Bezoar é acúmulo de material estranho não digerível pelo corpo, massa inorgânica compactada, invólucro de digestão impossível. Pode ser pérola, remédio, veneno, úlcera, pedra, perfume, memória-sedimento. Aqui, diante da constante ruminação do inconciliável do tempo, um bezoar se forma, passado, presente e futuro enovelando memória – que retorna como imagem, como ficção, como palavra-objeto-movimento. 

Quatro artistas-curadoras partem de suas histórias familiares para, juntas, em um processo de pesquisa de dois anos, investigarem os deslocamentos interior-capital que atravessam a população cearense. A partir de cartográficas reais e imaginadas, cartas, fotografias de desconhecidos, cenários ficcionados e paisagens registradas por olhos infantis, Bezoar do Tempo metamorfoseia a lembrança, fabula um Ceará impossível e se desprende das noções de documento e verdade para imaginar um espaço-tempo em que Orós, Sobral, São Benedito e Camocim se encontram, em que o marco zero de Fortaleza é também ponto de partida para pensar origens familiares e possibilidades narrativas. Ficcionar memória para fazer sobreviverem imagens ordinárias, dispor da invenção e do acaso para fazer do banal cotidiano material histórico de uma população. 

Olhamos para os desenhos de ir e vir, gravados na terra por quem chegou antes de nós. Nos munimos de genealogias familiares que são também deslocamentos emocionais e imperativos de sobrevivência. Buscamos os rastros de avós desconhecidas, de pedras sem nome, cindidas pelo tempo, de desenhos ancestrais, das tardes de domingo em família: tudo aquilo que já foi, tudo que nunca aconteceu e mesmo o que jamais será. Das opacidades da memória e dos interditos da palavra, olhamos o estranho-familiar, porque repetir é providência da existência. Estamos diante-dentro de nós mesmas e da história de trânsito de uma população, partindo de rastros impossíveis, de memórias esquecidas, para encarar o desconhecido e o não saber.

Assim, tornamos a imagem um processo de partilha. Nos apropriamos da nossa própria memória não digerida, esquecida na genealogia familiar e nos caminhos que nossos mais velhos percorreram, entre o interior e a capital. Seguimos rastros deixados por fotografias envelhecidas, por histórias cujas provas visuais se perderam pelo tempo. Instalações, imagens em movimento, objetos apropriados, filmes vencidos: a polissemia se constroi em cartas visuais, bezoares sedimentando no tempo. A fotografia, como linguagem central, de onde partem os atravessamentos propostos pelas obras instalativas, provocam a criação de mundos fabulados, binômios de memória e esquecimento.



AS ARTISTAS

Dayane Araújo [artista-curadora-produtora executiva]

Cearense com formação em design, fotógrafa, editora e artista visual com formação em narrativas e poéticas visuais pela Escola Porto Iracema das Artes, pesquisa e produz obras partindo de fotografias analógicas, intenção poética na imagem e escavação de arquivos. Interessa-se em vulnerabilidades da mente, pelo corpo em seus interstícios sendo passagem e paisagem. Compõe o Painel da Fotografia Contemporânea Cearense, publicou o fotolivro Fresta em 2021, foi coidealizadora do Efêmero Festival Experimental de Fotografia em suas duas edições, premiada na 1ª edição do Mulheres Luz e do Prêmio DocF, participou de diversas mostras coletivas no Brasil, Argentina, França, como no Festival de Fotografia de Tiradentes, Solar Foto Festival, Temporada de Arte Cearense, rodas de conversa na Bienal do Livro do Ceará e na 22ª Semana Nacional de Museus. Atuou como curadora em festivais e editou publicações e obras de outros artistas.


Taís Monteiro [artista-curadora]

Cearense, multiartista em fotografia, artes visuais instalativas, videomapping e audiovisual. Professora, roteirista e pesquisadora. Desenvolve obras imagéticas em constante experimentação com filmes analógicos e processos alternativos fotográficos, como a cianotipia, em diálogo com o vídeo e o cinema, em busca das distensões e alargamentos possíveis da imagem por visualidades oníricas e atmosferas sensíveis. Atualmente, é doutoranda em Narrativas e Estéticas da Imagem e do Som no PPGCOM – UFPE, com estudos acerca do imaginário, do território onírico e imagens geradas por Inteligência Artificial.


Luana Diogo [artista-curadora]

Cearense, artista visual, pesquisadora e educadora, atua principalmente na área de filosofia e da fotografia analógica, realizando cursos de formação, desenvolvendo métodos alternativos de revelação de filmes analógicos e mediando experiências com filmes vencidos. Atualmente, dedica-se a pesquisas no campo da teoria da imagem e em fotografia, da autoimagem e das ficções de si, tecendo experimentações a partir de registros de viagens, tanto em foto como em vídeo. É laboratorista na Una, laboratório de revelação de filmes fotográficos. Nos últimos três anos integrou o Painel da Fotografia Cearense, participou das publicações coletivas PrismaZine e da Revista Nerva, e da exposição coletiva

“São Pedro – Presença e fabulação” no Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza.


Marília Oliveira [artista-curadora-expografista]

Cearense de São Benedito, interessada em autoficção, memória, narrativa, imagem e palavra. Doutora em artes visuais pela UFBA e mestra em comunicação pela UFC, atualmente pesquisa imagem e imaginação, fabulação crítica, o visível e o invisível na imagem fotográfica. É pesquisadora, curadora, expografista, artista da imagem e da palavra e professora. Tem quatro fotolivros publicados e participou de exposições coletivas e mostras no Brasil, na França, em Portugal, na Espanha e na Alemanha. Participou de algumas residências artísticas pelo país, dentre elas Mira Latina LAB, em 2022. Foi curadora e idealizadora da Revista NERVA, com duas edições lançadas em 2021, revista de arte que reúne trabalhos de artistes nordestines. Em 2023 realizou sua terceira exposição individual, Elas chegam pelo mar, parte de sua pesquisa de doutorado, no MAC – Museu de Arte Contemporânea do Ceará, e é curadora da exposição individual de Jean dos Anjos, Festa, Baia, Gira, Cura. Em 2025 foi curadora do festival Imaginários, expôs na embaixada do Brasil na Alemanha, em Berlim, a obra Inauguração do Museu do Amor Sapatão.